Por Ana Frias
Nas grandes mobilizações feministas latino-americanas da década de 2010 a 2020, como a tsunami feminista chilena, muitas ativistas começaram a questionar: O agora é quando? A pergunta mostra como a história dos feminismos entrelaça passado, presente e futuro. Na dinâmica da vida diária, essas temporalidades evidenciam as violências que se reproduzem constantemente e refletem comportamentos que se converteram em hábitos. Hoje, as conquistas feministas estão tão incorporadas ao cotidiano que temos apenas uma vaga ideia do que seria viver sem poder votar, sem frequentar universidade, sem exercer uma profissão, sem acesso à educação, sem o divórcio, sem a possibilidade de emitir opinião ou de poder decidir sobre o próprio corpo.
Quando listamos todos estes avanços, percebemos que as sociedades mudaram, mas identificamos o quanto essas vitórias, que já representaram sonhos utópicos no passado, ainda requerem uma vigilância constante. A violência contra o feminino sempre articula um modo de permanecer, ganha novos discursos, estabelece estratégias sutis e configura situações ainda mais cruéis do que antes. Por outro lado, há uma resistência feminina que se faz também presente no curso da História. É como se a cada nova geração, a esperança de haver um futuro menos desigual, excludente e violento para o feminino se renovasse. No entanto, de forma geral, os corpos femininos acabam enfrentando um passado que insiste em permanecer e um futuro que nunca chega.
O que foi a tsunami feminista chilena de 2018?
Ao lidarem com distintas temporalidades, os feminismos latino-americanos quando explodem em protestos convocam um tempo em estado de urgência. Foi o que ocorreu, no Chile, em 2018, logo após a repercussão do #metoo e do #niunaamenos, as estudantes chilenas começaram a protestar em escolas e em universidades – públicas e particulares – para darem visibilidade aos casos de assédio sexual, debater educação de gênero e criticar políticas educacionais. Esse processo que ficou conhecido como tsunami feminista tinha a proposta de não apenas reformular a convivência entre os homens e as mulheres nas instituições acadêmicas, mas pretendia também revisar currículos para desmontar a lógica patriarcal da produção do conhecimento. Assim, contestavam conteúdos de cursos e interpretações de gênero que reforçavam desigualdades e desvalorizavam as disciplinas que eram mais atribuídas ao sexo feminino. Então, durante o governo do presidente Sebastián Piñera, alunas de várias escolas começaram a reivindicar uma educação antissexista nas marchas aos gritos de: “abortar o patriarcado e a sua educação de mercado”.
Porém, a tsunami feminista surgiu após uma série de relatos de violência sexual que sofriam estudantes, professoras e funcionárias de universidades. Muitas denúncias já estavam sendo noticiadas pela mídia desde 2016, mas um episódio na Universidade Austral do Chile foi a gota d’água, quando as universitárias tomaram um dos prédios para exigir a saída imediata de um professor que havia cometido violência. O processo rapidamente se massificou pelo país e novas acusações surgiram a partir de outros espaços acadêmicos. Como resposta, as universidades tiveram que criar protocolos e comitês para tratar denúncias e investir em atividades de prevenção, sanção e reparação. Da mesma forma que aumentaram a oferta de oficinas na área de gênero, aceitaram a linguagem inclusiva e passaram a ampliar a bibliografia de mulheres nas disciplinas dos cursos universitários.
A ocupação da Universidade Católica por mais de cem estudantes foi outro marco da tsunami feminista. Com a mobilização, a instituição se comprometeu a estabelecer uma educação não sexista, inclusiva e interseccional. As universitárias passaram a reivindicar um maior espaço para as dissidências. Para dar fim ao protesto, o reitor concordou em regularizar a situação de trabalho das funcionárias de limpeza, que eram prestadoras de serviço e trabalhavam sem direito a ter folgas na escala de trabalho. As manifestações feministas estudantis atenderam múltiplas demandas e enfatizaram não apenas um, mas diferentes tipos de abusos: assédios sexuais, o binarismo de gênero que invisibilizava as dissidências e a violência econômica que precarizava as condições de trabalho e de vida das mulheres.
O significado da pergunta “O agora é quando?” no movimento feminista chileno
Foi, exatamente, na frente da Universidade Católica do Chile que estava o cartaz com as inscrições “Nos calaram” e a pergunta “O Agora é quando?”. Para a crítica literária chilena Nelly Richard, essa pergunta indica um tempo que se declara em estado de emergência, que se configura como insurgente porque as pessoas querem colocar um fim ao que não suportam mais.
Nelly Richards, no livro Memoria, Latencia y Estallidos, publicado em 2022, já defendia que: “É um tempo que se reconhece como único e frágil, constantemente ameaçado por apelos à restauração da ordem que se impõem ou que negociam um retorno à normalidade. O ‘agora é quando?’ anuncia a mudança a praticando no momento que desiste de esperar a realização de uma promessa distante”.
O coletivo La Tesis e a performance “Un violador en tu camino”
Após os levantes, as instituições universitárias aceitaram medidas ainda limitadas para a área de gênero, as escolas e as universidades retornaram à normalidade e as ruas se esvaziaram dos corpos femininos que aos gritos proclamavam direitos. Também no Chile, outra campanha importante foi a performance Un violador en tu camino do coletivo feminista Lastesis. A coreografia, que ficou mundialmente conhecida, foi reproduzida em várias cidades para mostrar como a violência é um fator comum a todo lugar: América Latina, Europa, Estados Unidos, Ásia e África. No vídeo, mulheres de olhos vendados apontavam os algozes da violência e cantavam: “O patriarcado é um juiz que nos julga ao nascer, e nossa punição é uma violência que não se vê; o Estado opressor é um homem estuprador; o estuprador é você”. O coletivo também faz uma provocação à violência cometida pelo Estado ao adotar o título Un violador en tu camino, já que, durante a ditadura militar de Augusto Pinochet, o lema da instituição policial chilena dos carabineiros era: “Um amigo no seu caminho”. Novamente, o passado e o presente se sobrepõem para deixar visível uma violência que permanece.
Os desafios dos movimentos feministas na América Latina
Ao nomearem um repertório de violências, os feminismos deram destaque ao tema do feminicídio e revelaram como a violência contra os corpos femininos é um problema de escala global. Não por acaso, em 2024, um relatório da ONU apontou que não existe um lugar no mundo no qual uma mulher possa se sentir realmente segura.No conteúdo, os dados revelam que mais de 50 mil mulheres e meninas foram mortas, ao longo de 2023, por pessoas que eram seus companheiros afetivos ou membros da sua própria família. Os números, contabilizados por instituições em diferentes países, indicam um crescimento de assassinatos de mulheres dentro do ambiente familiar, principalmente, após a epidemia de Covid-19. O registro indica que cerca de 140 mulheres foram mortas por dia no mundo em decorrência da violência de gênero. Segundo o relatório, mulheres e meninas são afetadas por essa forma extrema de violência em todo o planeta e que não há uma região no mundo na qual possam se sentir realmente seguras.
No entanto, se as estudantes chilenas questionavam “Agora é quando?”, diante da expansão de discursos de políticas da extrema-direita e de discursos misóginos, que se multiplicam com uma potencialidade algorítmica nas redes sociais, segue essencial insistirmos na pergunta: “Até quando?”.
Na América Latina, os feminismos evidenciaram como experiências pessoais e coletivas se entrecruzam e revelaram que há problemas para além das fronteiras nacionais, mostrando a importância de um debate sobre modelos de justiça com uma perspectiva de políticas de gênero. Desta forma, como consolidar uma agenda feminista em uma região historicamente marcada por profundas desigualdades sociais e de gênero e altos índices de violência? O desafio é transformar esse clamor das ruas em compromisso, integrando o combate ao feminicídio e à misoginia e adotando uma política de proteção aos corpos mais vulneráveis.
Política Externa Feminista e o futuro da igualdade de gênero
Neste cenário, a construção de uma Política Externa Feminista latino-americana desempenha um papel central. Ela surge como a ferramenta capaz de articular uma aliança regional que traduza essas demandas em práticas para garantir a segurança de meninas e mulheres em seus próprios territórios. Hoje, essa realidade ainda parece um sonho utópico, semelhante àqueles que as feministas do passado ousaram imaginar, mas que reflete uma esperança a ser alcançada no futuro.