Por Darcília do Prado Barbosa e Silva

O cenário geopolítico da América Latina passa por uma virada estrutural. Após um período de governos progressistas e de um regionalismo pós-hegemônico, que buscava maior autonomia e cooperação Sul-Sul, a região vê o avanço de uma “onda azul” conservadora. Esse movimento, que já elegeu figuras como Javier Milei, na Argentina, e José Antonio Kast, no Chile, vai além de uma alternância de poder entre esquerda e direita: representa uma reconfiguração profunda das alianças, dos valores e, crucialmente, da própria concepção de multilateralismo e de soberania nacional. Nesse contexto, olhar para como os debates de gênero operam nessa reconfiguração é fundamental.

Como demonstram os debates da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), esse fenômeno global articula-se em torno de uma agenda antigênero, de um nacionalismo cristão e de um alinhamento subordinado a potências estrangeiras. Isso representa uma ameaça à democracia, aos direitos humanos e à autonomia da região, e coloca as democracias latino-americanas no centro dessa disputa.

As projeções abaixo elaboradas pelo Poder 360 demonstram essa guinada à direita:

A ofensiva da extrema direita contra a igualdade de gênero

O atual cenário latino-americano é marcado por uma ofensiva da extrema direita que contesta abertamente os princípios do liberalismo internacional, especialmente aqueles relacionados aos direitos humanos e à igualdade de gênero. Alimentada pela insatisfação popular com a estagnação econômica e com a insegurança, muito presentes no contexto atual de crise do neoliberalismo, a resposta oferecida por essa nova direita busca desmontar políticas de equidade e promover uma agenda de guerra cultural, em vez de propor medidas que fortaleçam o Estado de bem-estar social.

A “ideologia de gênero” como eixo da estratégia conservadora

Nesse contexto, testemunhamos o ataque à chamada “ideologia de gênero” como um dos principais eixos dessas estratégias. A obsessão da extrema direita com o gênero atua como uma metalinguagem e um fantasma totalizante que aglutina ansiedades sociais e as canaliza para um projeto de restauração autoritária. Nessa disputa discursiva, a invenção da “ideologia de gênero” como uma suposta ameaça à ordem natural da família e da sociedade é fruto de uma construção política cuidadosamente orquestrada pelo Vaticano na década de 1990, em reação aos avanços dos direitos sexuais e reprodutivos conquistados em conferências internacionais, como as do Cairo (1994) e de Pequim (1995).

Esse termo, posteriormente ressignificado e instrumentalizado por redes neoconservadoras e neopentecostais, tornou-se um poderoso significante vazio, capaz de agregar diferentes ansiedades sociais e mobilizar eleitores em torno de um pânico moral que, na prática, serve para deslegitimar o Estado laico, as políticas de equidade e o próprio sistema de direitos humanos. Essa estratégia se realiza, muitas vezes, por meio de fóruns que promovem e financiam a virada conservadora, materializando uma “internacional reacionária”.

A CPAC e a articulação transnacional da direita radical

Entre esses fóruns, a Conferência de Ação Política Conservadora destaca-se como um dos principais vetores de articulação transnacional da direita radical. A CPAC funciona como uma plataforma de coordenação dual: promove uma retórica nacionalista e antiglobalista enquanto, simultaneamente, tece alianças internacionais entre atores que compartilham uma visão de mundo baseada no conservadorismo moral cristão, consolidando-se como um espaço de formação política, espetáculo midiático e construção de redes.

No entanto, o perigo dessas instituições reside em sua atuação velada e seletiva. Ao contrário de fóruns diplomáticos tradicionais, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) ou a Organização dos Estados Americanos (OEA), a CPAC opera com uma lógica de rede regional de pessoas, composta por think tanks, influenciadores digitais e ativistas que compartilham estratégias e narrativas.

A narrativa de que a promoção da igualdade de gênero e dos direitos sexuais e reprodutivos é uma forma de colonização ideológica ou de marxismo cultural é disseminada de forma sistemática, criando um pânico moral e deslegitimando o próprio sistema de direitos humanos. O financiamento e a produção de conteúdo por esses think tanks conservadores mimetizam a lógica do ativismo social para servir a objetivos políticos mais amplos de desestabilização democrática. O apoio explícito da CPAC a líderes de extrema direita na região, inclusive na defesa pública daqueles que enfrentam processos judiciais, evidencia como essas conferências atuam ativamente na defesa de seus aliados e na tentativa de interferir nos processos judiciais e eleitorais de outros países.

O desmonte das instituições multilaterais latino-americanas

Compreender essa obsessão com o gênero é a chave para explicar por que o enfraquecimento das instituições multilaterais latino-americanas acontece e de onde vem seu respaldo. O desmonte de fóruns encontra legitimidade moral em redes religiosas e conservadoras que atuam dentro de espaços como a CPAC, onde igrejas, think tanks e lideranças políticas se articulam em torno de uma mesma pauta antigênero para justificar o rompimento com a institucionalidade multilateral em nome da “defesa da família” e dos “valores cristãos”.

Essas instituições regionais importam para a democracia porque sustentam mecanismos de cooperação, monitoramento de direitos humanos e resposta coordenada a retrocessos autoritários entre os países da região. É esse amálgama entre religião, moralidade e política que transforma o ataque ao gênero em combustível para o desmonte de instituições regionais, e é por isso que qualquer leitura sobre o futuro do multilateralismo latino-americano precisa passar, necessariamente, por entender como essa agenda opera.

O espectro político da América Latina encontra-se, portanto, profundamente fragmentado. A ascensão da extrema direita é um movimento coordenado que enfraquece as instituições multilaterais regionais. O desmantelamento da UNASUL e sua substituição por fóruns com menor institucionalidade e viés ideológico claro, como o PROSUL, são exemplos de como essa onda conservadora impacta a governança regional.  É nesse cenário regional que o Brasil, a maior economia e potência demográfica da América do Sul, se coloca como ponto de inflexão: a peça que faltaria para completar o mapa ideológico que se forma no continente.

Democracia para além do voto: direitos e soberania

Assim, pensar a democracia diante desse cenário exige perguntar o que acontece com as instituições depois do voto: com a autonomia da política externa, com a capacidade de um país de definir suas próprias alianças, com a permanência ou o desmonte de políticas públicas voltadas à equidade. E como isso se traduz no avanço da agenda antigênero na região? A experiência recente de governos alinhados à ofensiva conservadora já demonstrou o que essa agenda significa na prática: o desmonte de políticas de equidade de gênero, a censura a materiais educacionais que abordavam a diversidade sexual, a tentativa de restringir o acesso ao aborto legal e a retirada de posições progressistas em fóruns internacionais de direitos humanos.

Esse histórico importa porque mostra que a ofensiva antigênero se traduz em decisões concretas de governo, com efeitos duradouros sobre a vida de milhões de pessoas. Compreender a democracia apenas como um procedimento eleitoral deixa de fora justamente o que está em jogo depois da urna: a continuidade ou o desmonte de direitos que levaram décadas para serem construídos.

Há ainda outra dimensão importante: a autonomia nacional. Um projeto político que abdica da tradição brasileira de uma política externa autônoma e multilateralista para se alinhar de forma subordinada a potências estrangeiras também fragiliza a democracia, na medida em que subordina decisões internas a interesses e agendas que não nasceram do debate público doméstico. Pensar em democracia, portanto, é pensar também em soberania: até que ponto um país segue definindo seus próprios rumos, e até que ponto passa a importar pautas e prioridades de fora.

Os riscos para os direitos das mulheres e das pessoas LGBTQIA+

O que está em jogo nessa disputa retórica é a continuidade ou o afastamento de políticas públicas que afetam diretamente a vida de milhões de mulheres e pessoas LGBTQIA+. O retrocesso potencial é alarmante. Na América Latina, as conquistas feministas das últimas décadas, como a legalização do aborto em diversos países, a implementação de leis de violência doméstica, a criação de ministérios e secretarias dedicadas às mulheres e a incorporação da perspectiva de gênero em políticas públicas, foram resultado de lutas longas e árduas de movimentos sociais, muitas vezes diante de resistência violenta.

A Marea Verde, que conquistou avanços históricos na Argentina e inspirou movimentos em todo o continente, poderia ver seus ganhos ameaçados por uma ofensiva coordenada que busca não apenas estancar o progresso, mas reverter conquistas já consolidadas, como o direito ao aborto legal e à educação sexual integral.

O ataque ao gênero como estratégia política e o preço do retrocesso

Além disso, a centralidade do ataque ao gênero nesse projeto conservador revela sua função estratégica: desmobilizar e fragmentar os movimentos sociais, desviar o foco das crises econômicas e ambientais reais e construir um inimigo comum, como o feminismo, a “ideologia de gênero” e o “marxismo cultural”, que justifique a adoção de medidas autoritárias.

Ao transformar as pautas de gênero em uma ameaça existencial à nação e à família, esses líderes criam um terreno fértil para o enfraquecimento do Estado laico, a perseguição a minorias e a erosão da própria democracia. A história já nos ensinou que, onde os direitos das mulheres retrocedem, a democracia como um todo enfraquece. E na América Latina, onde a democracia é uma conquista recente e frágil, o preço desse retrocesso pode ser incalculável.

Perguntas frequentes

O que é a "ideologia de gênero" segundo o texto?+
É um termo inventado como suposta ameaça à ordem natural da família e da sociedade, fruto de uma construção política orquestrada pelo Vaticano na década de 1990, em reação aos avanços dos direitos sexuais e reprodutivos conquistados em conferências internacionais, como as do Cairo (1994) e de Pequim (1995).
O que é a CPAC e qual seu papel na articulação da direita latino-americana?+
A Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC) é um dos principais vetores de articulação transnacional da direita radical. Ela funciona como uma plataforma de coordenação dual: promove uma retórica nacionalista e antiglobalista enquanto tece alianças internacionais entre atores que compartilham uma visão de mundo baseada no conservadorismo moral cristão.
Como a agenda antigênero afeta as instituições multilaterais latino-americanas?+
O ataque ao gênero serve de combustível moral para o desmonte de instituições regionais. O desmantelamento da UNASUL e sua substituição por fóruns com menor institucionalidade e viés ideológico claro, como o PROSUL, são exemplos de como essa onda conservadora impacta a governança regional.
Por que o Brasil é considerado central nessa disputa?+
Por ser a maior economia e potência demográfica da América do Sul, o Brasil se coloca como ponto de inflexão: a peça que faltaria para completar o mapa ideológico conservador que se forma no continente.
Quais direitos estão em risco com o avanço da direita conservadora na região?+
O desmonte de políticas de equidade de gênero, a censura a materiais educacionais sobre diversidade sexual, a tentativa de restringir o acesso ao aborto legal e a retirada de posições progressistas em fóruns internacionais de direitos humanos — retrocessos que ameaçam conquistas como as da Marea Verde argentina.
Qual é a função estratégica do ataque ao gênero para a direita radical?+
Desmobilizar e fragmentar os movimentos sociais, desviar o foco das crises econômicas e ambientais reais, e construir um inimigo comum — o feminismo, a "ideologia de gênero" e o "marxismo cultural" — que justifique a adoção de medidas autoritárias.