Por Maria Gabriela Veloso

A diplomacia brasileira, frequentemente celebrada como uma das instituições mais prestigiadas do Estado, foi construída sob um pacto androcêntrico que, por décadas, naturalizou a ausência feminina como sinônimo de “eficiência”.

A entrada das mulheres no Itamaraty não deve ser lida apenas como uma correção tardia de injustiças ou um ajuste institucional. Trata-se de uma transformação na própria identidade da diplomacia brasileira. Afinal, questionar quem pode representar o país no exterior é também questionar quais vozes são consideradas legítimas para falar em nome da nação.

Ao longo do tempo, a presença feminina na política externa brasileira passou de experiências pioneiras e isoladas, no início do século XX, para um movimento mais amplo que busca incorporar a perspectiva de gênero de forma transversal na atuação diplomática. Ainda assim, essa trajetória está longe de se encerrar.

Como as mulheres começaram a entrar na diplomacia no Brasil

O fim da Primeira Guerra Mundial, somado a um hiato de quinze anos sem concursos públicos, criou uma carência de pessoal no Ministério das Relações Exteriores. À época, o Itamaraty era organizado em três carreiras distintas: diplomática, consular e de oficiais de secretaria, e foi nesse contexto que o Decreto nº 12.998 abriu espaço para o ingresso de terceiros oficiais.

O edital não fazia qualquer menção ao gênero dos candidatos. Esse silêncio refletia um padrão mental em que a vida pública era entendida como naturalmente masculina. Não era preciso proibir mulheres, sua presença simplesmente não era considerada.

Esse cenário começa a mudar em agosto de 1918, quando o então ministro das Relações Exteriores, Nilo Peçanha, escreve um despacho que se tornaria histórico. Nele, autoriza a inscrição de uma jovem baiana em um concurso para a carreira diplomática, ainda que com ressalvas:

“Não sei se as mulheres desempenhariam com proveito a diplomacia, onde tantos atributos de discrição e competência são exigidos – mas que não são privilégio do homem […]. Se nas monarquias as mulheres podem ser imperatrizes e rainhas, não vejo por que nas repúblicas se lhes feche o ingresso aos cargos administrativos.”

Maria José de Castro Rebello Mendes, a primeira mulher diplomata do Brasil 

Maria José de Castro Rebello Mendes não apenas ingressou no Itamaraty, como foi aprovada em primeiro lugar no concurso de 1918, tornando-se a primeira mulher a integrar a carreira diplomática no Brasil.

Maria José carregava uma realidade distante das elites que tradicionalmente ocupavam o serviço exterior. Era responsável pelo sustento de uma família de cinco pessoas, incluindo a mãe viúva e uma irmã doente. A imprensa da época descrevia seu “olhar de febre” e destacava sua determinação quase obstinada – traços que ajudaram a construir a imagem de uma figura ao mesmo tempo excepcional e deslocada naquele ambiente.

Para viabilizar sua candidatura, recorreu a Ruy Barbosa, amigo de seu pai, que atuou como uma espécie de fiador intelectual de sua iniciativa. Barbosa argumentou junto a Nilo Peçanha que a legislação vigente não fazia distinção de sexo, e, portanto, não havia base legal para impedir sua inscrição.

Mais do que uma conquista individual, a aprovação de Maria José expôs as fissuras de um sistema que, até então, sequer havia considerado a possibilidade da presença feminina.

A entrada de Maria José Rebello Mendes no Itamaraty

O Itamaraty consolidou, ao longo do século XX, uma identidade marcada pelo elitismo, pelo patrimonialismo e por uma cultura profundamente masculina. Ser diplomata, nesse imaginário, era coisa de homem: culto, “de boa família” e bem conectado às esferas de poder.

A entrada de Maria José Rebello Mendes, em 1918, só foi possível graças a uma interpretação jurídica estratégica – foi uma brecha. Ainda assim, a recepção esteve longe de ser acolhedora. Maria José era a única mulher em um universo de 235 homens.

A instituição improvisou; adaptaram banheiros às pressas, enquanto sua presença era tratada como uma curiosidade. Na imprensa, o tom variava entre ironia e hostilidade. Alguns jornais falavam no “triunfo de Eva”, enquanto vozes como a de Lima Barreto recorriam a argumentos pseudocientíficos para questionar sua capacidade, sugerindo que o trabalho feminino poderia prejudicar a “reprodução da raça”.

O corpo, a aparência e o desempenho intelectual de Maria José eram constantemente vigiados e comentados. Ao transformar sua presença em um “teste” permanente, buscava-se enquadrá-la como exceção, quase uma anomalia e, assim, preservar a ideia de que a diplomacia era, em essência, um espaço masculino.

Mulheres conquistam mais espaço na carreira diplomática

Entre 1918 e 1938, outras dezenove mulheres ingressaram no serviço exterior brasileiro. Conjunto que ficou conhecido como o “Grupo das 20”. A maioria foi direcionada para funções administrativas e consulares, tradicionalmente vistas como menos prestigiadas. Ainda assim, algumas conseguiram romper esse limite. Três delas chegaram ao topo da carreira, desafiando as expectativas institucionais da época.

O ingresso de Maria José permitiu a entrada de outras mulheres, como Wanda Vianna Rodrigues, Celina Porto Carrero e Zorayma de Almeida Rodrigues. Wanda foi uma das primeiras a servir no exterior, em Paris, ainda em 1928. Já Zorayma chegou a chefiar o consulado em Liverpool durante a Segunda Guerra Mundial.

O que parecia uma abertura promissora nas primeiras décadas do século XX logo daria lugar a um endurecimento institucional.

Reforma Oswaldo Aranha e os impactos no ingresso de mulheres no serviço exterior brasileiro 

Em 1938, a chamada Reforma Oswaldo Aranha reorganizou o serviço exterior brasileiro. O Decreto-Lei nº 791 fundiu as carreiras diplomática e consular, e estabeleceu que apenas candidatos do sexo masculino poderiam participar dos concursos de admissão. Mais do que um ajuste administrativo, a reforma de 1938 representou um retrocesso claro. Transformou barreiras informais em regra jurídica e redefiniu, de maneira explícita, quem podia e quem não podia representar o Brasil no exterior.

Resistência frente à exclusão das mulheres no serviço exterior brasileiro

A exclusão formal das mulheres do serviço exterior durou 16 anos, mas não passou sem contestação. Bertha Lutz, uma das principais lideranças do movimento feminino no país, atuou diretamente contra a medida.

À frente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, Lutz escreveu ao então chanceler Oswaldo Aranha solicitando a manutenção do direito das mulheres de ingressar na carreira diplomática. A resposta veio em uma carta extensa, na qual Aranha argumentava que a presença feminina poderia comprometer a “eficiência” da representação brasileira e gerar “embaraços” administrativos e sociais no exterior. O resultado foi um longo período de exclusão formal, no qual o gênero se tornou uma barreira explícita e intransponível para novas candidatas.

A volta das mulheres brasileiras ao serviço diplomático

O fim do Estado Novo, em 1945, e a promulgação da Constituição de 1946 abriram novas possibilidades de contestação. Em um ambiente de redemocratização, os argumentos legais que sustentavam a exclusão passaram a ser cada vez mais frágeis, criando brechas que, pouco a pouco, seriam exploradas.

A volta oficial das mulheres à carreira diplomática  

Em 1954, a Lei nº 2.171 finalmente reabriu, de forma explícita, as portas da diplomacia brasileira para as mulheres. O texto estabelecia que o ingresso na carreira diplomática era facultado aos brasileiros natos “sem distinção de sexo” revertendo, ao menos no plano legal, a exclusão formal imposta desde 1938.

Avanços com a Constituição de 1988  

A Constituição de 1988 marcou um ponto de inflexão ao consagrar, de forma explícita, a igualdade jurídica entre homens e mulheres no Brasil.

Ainda assim, a igualdade formal não se traduziu imediatamente em igualdade de condições. O próprio Itamaraty levou anos para revisar normas internas que perpetuavam desigualdades. Um exemplo emblemático foi a questão da remuneração de casais de diplomatas no exterior, corrigida apenas em 1996, com a Lei nº 9.392.

Mesmo com o fim das barreiras normativas mais explícitas, persistem obstáculos menos visíveis, mas igualmente relevantes. Normas informais, expectativas de gênero e dinâmicas internas continuam a moldar e limitar a trajetória das mulheres na diplomacia brasileira.

Mulheres Pioneiras e inspirações no serviço diplomático brasileiro  

Algumas trajetórias individuais se destacam como marcos importantes não apenas por suas conquistas, mas por ampliarem os limites do que era considerado possível para mulheres na diplomacia brasileira.

Em 1956, Odette de Carvalho e Souza tornou-se a primeira mulher a alcançar o posto de embaixadora na carreira diplomática brasileira. Décadas depois, Vitória Alice Cleaver quebrou outro tipo de barreira ao se destacar no Instituto Rio Branco, tornando-se a primeira mulher a obter o primeiro lugar no Curso de Preparação à Carreira Diplomática.

Thereza Maria Machado Quintella se tornou a primeira mulher a dirigir o Instituto Rio Branco, assumindo um papel central na formação de novas gerações de diplomatas.

Mais recentemente, Maria Luiza Ribeiro Viotti consolidou a presença feminina em espaços-chave do multilateralismo, ao atuar como representante do Brasil junto às Nações Unidas e, posteriormente, como chefe de gabinete do Secretário-geral António Guterres.

Outro marco importante foi a trajetória de Mônica de Menezes Campos, aprovada em 1978, tornando-se a primeira diplomata negra do Brasil.

A desigualdade de gênero é persistente na Política Externa Brasileira  

Dados recentes revelam uma realidade ainda bem desigual dentro do próprio Itamaraty. Em 2024, a distribuição de chefias de posto evidencia a persistência e, em alguns casos, o aprofundamento do chamado “teto de vidro”. Nas nomeações para postos no exterior, a concentração masculina permanece dominante, especialmente nos cargos de maior prestígio político e estratégico.

Esse cenário contrasta com momentos anteriores de avanço. Entre 2002 e 2011, por exemplo, o número de embaixadoras cresceu de forma expressiva – um aumento de 278,59%. Mesmo nesse período, a ocupação de cargos de alto nível já se mostrava desigual: em 2018, apenas uma das nove subsecretarias-gerais do Itamaraty era chefiada por uma mulher.

Nesse contexto, o conceito de “teto de vidro” ajuda a explicar a dinâmica observada: mulheres ingressam na carreira e progridem, mas enfrentam barreiras persistentes para alcançar os níveis mais altos. Quando chegam, suas trajetórias tendem a ser tratadas como exceções.

Mulheres e a Política Externa Brasileira  

Enfrentar o “teto de vidro” na diplomacia brasileira exige ir além da lógica do mérito individual. Trata-se de reconhecer que a desigualdade é sustentada por práticas institucionais e culturais e que sua superação depende de ação coletiva e transformação estrutural.

Mais do que uma questão interna de recursos humanos, a presença de mulheres na diplomacia é, em si, um tema de política externa. Afinal, quem representa o Brasil no mundo define prioridades, molda agendas e conduz negociações. Uma diplomacia que sub-representa metade da população dificilmente pode afirmar que expressa, de forma plena, os interesses do país.

Ao longo do século XX, a igualdade de gênero foi sendo incorporada de forma progressiva às agendas internacionais, das Conferências Mundiais sobre a Mulher, à Resolução 1325 do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil participou de diversas conferências, assinou e ratificou tratados e tem pautado essa temática na sua atuação. O desafio, entretanto, não é apenas aderir a normas internacionais, mas refletir esses compromissos na própria prática diplomática. Nesse sentido, a composição do corpo diplomático torna-se parte integrante da credibilidade da política externa brasileira.

Mulheres no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática de 2026  

No último dia 24 de junho, data comemorativa do Dia Internacional das Mulheres na Diplomacia, foi publicado no Diário Oficial o nome dos aprovados da última edição do Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD).  Dentre os 60 candidatos aprovados, 27 são mulheres – o maior percentual da história. Este ano foram 10,2 mil inscritos, sendo 45,35% mulheres. A lista contou ainda com os primeiros candidatos indígenas e a primeira candidata quilombola aprovados no concurso.