Por Bruna Soares

Entre os dias 1 e 3 de junho de 2026 aconteceram os eventos associados a “V Conferência Ministerial de Política Externa Feminista”, edição  sediada na capital espanhola, Madrid. O primeiro dia de conferência foi dedicado à realização do Fórum da Sociedade Civil que, segundo o próprio Governo espanhol, foi acolhido como parte oficial da programação. Essa troca aconteceu na sede da Agência de Cooperação Internacional (AECID), tendo a Secretária de Estado de Cooperação Internacional, Eva Granados, na mesa de abertura, e a última palavra do dia dada pelo Diretor da AECID, Atón Leis García, que se autodeclarou não apenas um aliado da causa, mas um feminista ele mesmo. Leis García aproveitou o momento também para reforçar  o slogan que seria repetido pelo Ministro Assuntos Exteriores, União Europeia e Cooperação da Espanha,  José Manuel Albares Bueno, ao longo dos dois dias seguintes: Madrid era a “capital da Igualdade” durante aquela semana.

O Fórum da Sociedade Civil foi uma oportunidade para compreender o que movimentos feministas de diferentes origens e contextos esperam e vislumbram em uma Política Externa Feminista (PEF). Ainda que seja uma iniciativa importante, é fundamental destacar que o processo de integração no comitê organizacional e próprio convite para o evento feito à sociedade civil, foi severamente criticado e contestado por movimentos do Sul Global, em especial latino-americanos, mas também por movimentos espanhóis ligados a agenda migratória – tema levantado apenas no último dia da Conferência e que foi evitado pela Embaixadora Plenipotenciária para a Política Externa Feminista da Espanha, Ana Alonso Giganto.

Para além do tradicional problema estrutural no que diz respeito à  abertura para  participação efetiva da sociedade civil, o que ficou evidente ao longo do Fórum foi uma certa consciência comum de que ainda estamos falando de uma política em construção, principalmente porque existe um reconhecimento de que os Estados com PEF ainda setorizam a agenda, e, em muitos mais casos do que desejamos, reforçando a utilização do feminismo muito mais como um adjetivo é uma marca de determinados grupos políticos, e que não, necessariamente, logram colocar em prática os compromissos que tendem a assumir em suas narrativas.

Um exemplo concreto que pode ser observado durante o evento foi a agenda de migração na Europa, isto porque recentemente o bloco europeu endureceu suas políticas de acolhimento, enquanto o governo espanhol tem proposto um caminho de portas abertas. O tema ficou totalmente de fora dos debates da Conferência, e claramente evitado pelas autoridades espanholas feministas quando questionadas.

Para grande parte dos movimentos sociais presentes no Fórum – nem todos foram convidados para a Conferência – mas, principalmente, para as colegas do Oriente Médio – ou como elas usam, Oriente Próximo – o problema da PEF está justamente em uma internacionalização do feminismo hegemônico. Que é justamente o processo de assumir como único modelo de feminismo aquele que é desenvolvido no Norte Global, liderado majoritariamente por mulheres brancas que buscam integração quantitativa na política, direitos políticos e eleitorais, por exemplo. Enquanto diferentes epistemologias do Sul Global, e de mulheres de outras origens no próprio Norte Global, defendem uma perspectiva interseccional, inclusiva e que pense para além do empoderamento econômico e político, dialogando com outras esferas públicas e privadas que inferem na heterogeneidade do ser mulher em diferentes lugares do mundo.

Contudo, apesar deste reconhecimento por parte das feministas do Sul Global presentes no evento, ficou evidente um limitado espaço de diálogo com os movimentos sociais convidados. Infelizmente, nem durante o Fórum nem durante a Conferência, houve espaço para perguntas da audiência no decorrer das mesas e painéis. A voz da sociedade civil ficou restrita a ser representada pelas organizações que trabalharam de maneira integrada com o escritório da Embaixadora Ana Alonso para a organização da Conferência. Inclusive, nas sessões do dia 2 de junho, a sociedade civil não teve credenciamento para acessar o auditório onde estavam os representantes de governos, e assistiram os painéis em salas de transmissão no mesmo edifício.

Esta falta de diálogo com outras experiências feministas foi abordada pelas colegas latino-americanas durante o Fórum e a Conferência. Foi sublinhado que a questão epistemológica é central, isto porque pensar, definir e traduzir os feminismos de vários contextos em uma única visão não apenas é reducionista com a própria PEF, mas  também com a promoção daquilo que se busca combater.

No próprio espaço da sociedade civil esta realidade foi reproduzida, como se fosse uma  condição inescapável. Ao debater as oportunidades inovadoras que a perspectiva das PEFs pode gerar para a Cooperação Internacional para o Desenvolvimento (CID) e para Ajuda Oficial  ao Desenvolvimento (AOD), o Fórum perdeu a chance  de facilitar um diálogo a partir de experiências situadas em territórios tradicionalmente referenciados como beneficiários de CID e AOD, que possuem alternativas concretas e reais ao modelo tradicional da indústria do desenvolvimento. O que se materializou foi  uma mesa dedicada a apresentar e reforçar a potencialidade de um projeto de financiamento específico de um país do Norte Global que vem financiando movimentos e organizações feministas no Sul Global ao longo dos últimos anos, o que gerou, ao menos desde uma perspectiva latino-americana, mais uma reprodução dos padrões coloniais.

Financiamento de movimentos feministas

Outro ponto de destaque do Fórum foi a questão do financiamento dos movimentos feministas em si. Este debate foi levado para a Conferência, e foi, claramente, uma agenda consensuada entre o comitê da sociedade civil e o governo espanhol. Isto porque em sua fala final, o Ministro José Manuel Albares retomou a demanda dizendo que a partir do dia 3 de junho se iniciaria o momento mais difícil: colocar em prática o que foi dialogado na Conferência, através do apoio financeiro aos movimentos ali presentes.

O diferencial do debate neste espaço, esteve, entretanto, no reconhecimento de que esses financiamentos não devem estar centrados apenas em atividades e projetos pontuais, mas que deve ser considerada a sustentabilidade desses movimentos, coletivos e organizações. Ou seja, os salários das mulheres que estão ali trabalhando cotidianamente nesses movimentos organizados  devem ser sustentados por mais de três anos – tempo médio que um projeto financiado externamente costuma durar, por exemplo.

Ainda neste tema, também ficou evidente a preocupação, por um lado, com a redução da Ajuda ao Desenvolvimento para temas de gênero e feminismo, e o aumento, por outro lado, de fundos direcionados ao financiamento de guerras e conflitos, nos quais mulheres e meninas são majoritariamente vitimizadas.

Colegas de diferentes regiões do Sul Global propuseram uma reflexão sobre o fato de esta diminuição pode ser interpretada como uma oportunidade de repensar as estruturas tradicionais dos financiamentos baseados em lógicas de subjugação, deterioração de sistemas políticos, econômicos e sociais dos chamados países beneficiários. Isto porque o que vem sendo denominado como “crise do multilateralismo”, de acordo com uma colega feminista iraniana, nada mais é do que o multilateralismo em si, como ele sempre foi para os países do Sul Global, só que agora sentido e percebido por todos. Não é uma crise, é uma revelação do multilateralismo.

A Agenda Mulher, Paz e Segurança no centro do debate da Política Externa Feminista

A Agenda Mulheres, Paz e Segurança (MPS) também esteve em voga no debate. Não apenas nos discursos das autoridades espanholas, mas, também, nos painéis oficiais da Conferência, o tema de conflitos armados e o impacto para a vida das mulheres e meninas foi central.

Pela primeira vez, enquanto participante de uma Conferência Internacional foi possível ver uma elevada representatividade de mulheres do Oriente Médio/Próximo  e africanas. 

A Agenda MPS foi abordada como central para a promoção da paz, da democracia e da própria Política Externa Feminista. Ativistas e movimentos do Afeganistão, Iraque, Palestina e Líbia, por exemplo, compartilharam suas experiências em propor mesas de negociação de acordos de paz e cessar fogo, e relataram a dificuldade de colocar em prática as Resoluções já adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU nos conflitos atuais, e como tem se visto cada vez menos mulheres sentadas nos espaços de tomada de decisão para enfrentar o tema. Retomando, aqui, a questão do aumento do financiamento bélico e investimento em segurança, muito mais do que na paz e no fortalecimento das democracias.

Ainda, por necessidade de aderência ao tema por parte dos tradicionais tomadores de decisão, foi possível perceber que a Agenda está constantemente vinculada à narrativa de que mais mulheres nos processos de negociação significam uma paz mais sustentável e duradoura. Entendemos que é um procedimento estratégico para que as demandas possam ser incluídas na pauta, mas também reconhecemos que em algum momento será necessário superar esta reificação da mulher enquanto, apenas, agente de paz – principalmente quando se fala em PEF.

Os movimentos anti-gênero e a ruptura democrática

Falar em crise democrática e do multilateralismo não é possível sem entender as dinâmicas que nos trouxeram até aqui. Tanto no Fórum da Sociedade Civil quanto na Conferência ficou evidente uma chave interpretativa – e que está sendo assumida no contexto de promoção das PEFs – que movimentos anti-gênero são estratégias da extrema direita para enfraquecimento das estruturas democráticas ao redor do mundo.

O Ministro José Manuel Albares reforçou em diferentes momentos que não existe democracia sem igualdade de direitos, e que a igualdade de gênero deve estar no centro da conversa e da resistência. De acordo com Albares, quando os Estados e governos oferecem apoio aos movimentos feministas – seja por meio da promoção de diálogo para construção de políticas públicas de igualdade, ou pelo próprio financiamento do trabalho dessas organizações – há uma grande chance de frear o avanço da extrema direita e de movimentos antidemocráticos.

A criminalização dos movimentos sociais feministas, o retrocesso em políticas de igualdade, são linhas de atuação de governos conservadores como nos EUA, e em outros países europeus e latino-americanos, e as redes sociais e a tecnologia da informação têm sido instrumentos valiosos para estes grupos avançarem, alçando uma legião de homens – particularmente jovens – por um caminho de retrocesso e violência. Por isso, em uma mesa específica sobre o tema, ficou evidente a necessidade de regulamentação das plataformas de redes sociais não apenas como uma medida de segurança, mas como uma estratégia de política feminista para a proteção de meninas e mulheres e das democracias ao redor do mundo.

A redução da participação dos países no diálogo feminista

Infelizmente a sensação que ficou foi a de que os países não enviaram representantes de alto escalão para o evento, e outros não mandaram nenhuma representação oficial, como foi o caso do Brasil, que vinha acompanhando o debate de PEF enviando representantes diplomáticos nos últimos anos – apesar de não firmar as declarações oriundas das conferências.

Este ano, a declaração foi firmada pela Espanha, Albânia, Andorra, Armênia, Bélgica, Cabo Verde, Canadá, Chipre, Colômbia, Estônia, França, Irlanda, Islândia, Lituânia, Luxemburgo, Macedônia do Norte, México, Montenegro, Noruega, Portugal, Reino Unido, Ruanda, Tailândia, Timor-Leste, Ucrânia e Uruguai. 

Podemos ver um recuo de importantes países da região latino-americana, não apenas o Brasil, mas também o Chile. A República Dominicana enviou representante, mas não firmou a Declaração. Andorra firmou a Declaração, mas com ressalvas a questão específica que solicita a legalização do aborto. E Marrocos, que será a próxima sede da Conferência Ministerial, em 2027, não enviou representantes e nem firmou a Declaração.

Fato é que a foto oficial deste ano se vê esvaziada, e isso é muito preocupante frente a uma realidade global de avanço de movimentos antidemocráticos e de ações diretas contrárias à participação de meninas, mulheres, e outras populações tradicionalmente marginalizadas nos espaços de poder. Ainda precisamos acreditar que a via do diálogo, da participação, da igualdade, da democracia e feminista é o melhor caminho, e não ter receios de posicionamentos.

Apesar desta sensação de que houve menor participação, se fazem cada vez mais válidas as palavras de uma ativista uruguaia presente no evento: “estão nos vendendo a imagem de que estamos perdendo, mas somos nós que estamos vencendo”. Nos últimos 30 anos apenas quatro países retrocederam em legislações para a legalização do aborto,enquanto 60 avançaram. Não vamos acreditar na história que está sendo contada. Nós estamos vencendo.

O OPEFI, com pouco mais de dois anos de trabalho, foi convidado para estar tanto no Fórum quanto na Conferência. Essa é uma vitória para o movimento feminista brasileiro e latino-americano, porque nosso país foi representado neste espaço. O que significa que a ciência, a democracia e a igualdade ainda são lutas que valem a pena serem lutadas.

Seguimos acreditando e trabalhando para que em 2027, no Marrocos, possamos avançar um pouco mais. Há muito o que melhorar neste espaço, mas o fato de ele existir, nos permite realizar críticas para o melhorar. Estamos vencendo.