Por Nycolas Candido
Mariana Franco Ramos
Mulheres e meninas estão na “linha de frente” tanto das soluções quanto dos impactos mais graves da crise climática. Na Amazônia, essa realidade já foi reconhecida em acordos e compromissos regionais que defendem maior participação feminina nas decisões sobre o futuro da floresta. O problema é que, quando chega a hora de transformar essas promessas em políticas concretas, as mesas de decisão continuam ocupadas quase exclusivamente por homens. Sem diversidade na diplomacia regional, parte importante desses compromissos corre o risco de não sair do campo das intenções.
Os compromissos internacionais para as mulheres na Amazônia
Em 2025, a COP30 aprovou em Belém o Plano de Ação para Gênero, que prevê ações internacionais, nacionais e regionais para, entre outras metas, ampliar a liderança feminina nas negociações globais e conferências climáticas. Na Amazônia, essas diretrizes dialogam com a Declaração de Belém, assinada em agosto de 2023 pelos oito países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Entre seus objetivos estão o fortalecimento da participação das mulheres em espaços de decisão, a criação de um Observatório das Mulheres Rurais para a Amazônia e de um fórum de debate interseccional sobre gênero, etnicidade e clima.
Juntos, estes acordos consolidam um regime climático internacional de proteção e promoção das mulheres, com especial atenção às realidades e demandas das mulheres amazônicas em toda sua diversidade. Eles indicam que, mesmo em uma era de expansão global da misoginia e das políticas antigênero, os espaços regionais e multilaterais são capazes de gerar consenso e colocar no papel iniciativas de real impacto na vida de meninas e mulheres que vivem nos territórios mais afetados pelas mudanças climáticas. Ou seja: a base normativa internacional para apoiar as mulheres amazônicas já existe. Resta saber se os países estão igualmente prontos para aplicá-la na prática.
Obstáculos para implementar os compromissos de gênero
A implementação dos compromissos de gênero da Declaração de Belém, porém, ainda enfrenta obstáculos. Segundo estudo da Plataforma CIPÓ sobre a implementação do acordo, entre a sua assinatura e meados do ano passado, apenas uma medida adotada pelos países amazônicos abordou o Observatório das Mulheres Rurais: uma resolução dos ministros das Relações Exteriores dos países da OTCA que reforçou esse compromisso. Já no campo do debate interseccional de gênero, a Plataforma Regional Amazônica de Povos Indígenas e Mudança Climática, desenvolvida pela OTCA entre 2022 e 2024, contou com ampla participação de mulheres e jovens indígenas, posteriormente fortalecida pela criação do Mecanismo Amazônico de Povos Indígenas (MAPI). Ainda assim, até o momento, não foi criado o fórum especializado em debates interseccionais previsto pela Declaração.
A baixa representação feminina na diplomacia amazônica
Os desafios são múltiplos. Apesar de coordenar iniciativas fundamentais entre os países amazônicos, a OTCA enfrenta entraves financeiros, técnicos e políticos. Contudo, um dos fatores dessa equação ainda recebe pouca atenção: a baixa representação de mulheres na diplomacia regional. As medidas concretas para implementar os compromissos assumidos pelos chefes de Estado da OTCA são decididas por consenso nas reuniões dos ministros das Relações Exteriores dos oito países membros. Segundo o relato da XIV reunião, realizada em Brasília e dedicada à implementação da Declaração de Belém, somente uma das representantes diplomáticas presentes era mulher: a embaixadora Elizabeth Taylor Jay, então vice-ministra de Assuntos Multilaterais da Colômbia. Igualmente, no relato da última Reunião de Chanceleres, realizada em agosto de 2025, em Bogotá, Colômbia, apenas duas mulheres são citadas: Rosa Yolanda Villavicencio, ministra das Relações Exteriores da Colômbia, e Celinda Sosa Linda, ministra das Relações Exteriores da Bolívia.
Na data de publicação deste artigo, todos os chanceleres amazônicos são homens.
Por que a representatividade das mulheres importa
Essa disparidade não significa que uma diplomacia amazônica majoritariamente masculina seja incapaz de reconhecer questões de gênero. As quatro reuniões de chanceleres realizadas desde a Declaração de Belém, afinal, reiteraram compromissos com a participação e o protagonismo das mulheres. O problema é que, somada aos desafios institucionais, a baixa presença feminina limita a elaboração de estratégias mais específicas para transformar esses compromissos em ações concretas. Como defende o OPEFI, uma política externa inclusiva, sobretudo quando aliada à participação qualificada da sociedade civil, contribui para que o desenho e a execução de medidas internacionais incorporem de fato as “experiências, vozes e demandas” das mulheres e de outros grupos subrepresentados. Essa representatividade é especialmente importante para as políticas climáticas na Amazônia, onde o aumento no nível dos rios e as altas temperaturas afetam desproporcionalmente os modos de vida de mulheres ribeirinhas e produtoras rurais – justamente o público que os mecanismos previstos na Declaração de Belém buscam alcançar.
Uma disparidade global: mulheres na diplomacia multilateral
A disparidade de gênero na diplomacia amazônica está longe de ser uma exceção. Ela reflete um desequilíbrio global. Segundo a organização GWL Voices, desde 1947 apenas 8% de todos os diplomatas representantes dos Estados membros junto às Nações Unidas foram mulheres, e 72 dos 193 membros da Organização nunca enviaram uma mulher para representá-los. Mesmo com avanços na paridade de gênero em quadros da ONU, o desequilíbrio permanece evidente também nos postos de maior poder: em mais de oito décadas de existência, nenhuma mulher foi eleita pelos Estados para ocupar a Secretaria-Geral das Nações Unidas. No regime climático, o cenário é semelhante. Um estudo recente da GWL mostrou que as mulheres representaram 39% das delegações nacionais na COP30, proporção que caiu para 31% entre as chefias dessas delegações. Historicamente, apenas 26% das presidências das 30 COPs realizadas até hoje foram ocupadas por mulheres.
O cenário brasileiro: a paridade de gênero no Itamaraty
Na política externa brasileira, a desigualdade permanece expressiva. Conforme dados do último Boletim Estatístico do Itamaraty, 70% do serviço exterior brasileiro é formado por homens, havendo maioria masculina em todos os postos, incluindo os de mais alta classe. Já o Termômetro da Paridade,da Associação de Mulheres Diplomatas Brasileiras (AMDB), aponta que em nenhum dos três continentes avaliados (Europa, América do Sul e Ásia) o número de embaixadas brasileiras chefiadas por mulheres chega sequer a um terço das chefias masculinas.
O Ministério de Relações Exteriores (MRE) do Brasil tem tomado medidas contra estas disparidades. Recentemente, o MRE adotou a reserva de vagas para mulheres na 2ª fase do concurso à carreira diplomática e inaugurou o cargo de Alta Representante para Temas de Gênero, atualmente ocupado pela diplomata Vanessa Dolce de Faria. Desde 2023, associado a um maior compromisso do Executivo com a redução das desigualdades, já cresceu em 20 pontos percentuais o número de mulheres assumindo cargos de chefia no Itamaraty. Esses avanços ainda estão longe de eliminar os desequilíbrios de gênero, mas ampliam a capacidade do Brasil de liderar pelo exemplo. Como país-sede da OTCA e protagonista da convocação da Cúpula da Amazônia, que deu origem à Declaração de Belém, o país tem condições de impulsionar uma diplomacia amazônica mais representativa e mais ativa na promoção dos direitos das mulheres da região.
Dia da Amazônia: da retórica ao compromisso concreto
Neste sábado, 5 de setembro, celebra-se o Dia da Amazônia: uma data que convida à reflexão sobre o presente e o futuro de uma região profundamente afetada pelas mudanças climáticas, mas também marcada pela resistência de quem vive e protege seus territórios. Não há celebração possível sem reconhecer que a proteção da floresta passa, necessariamente, pelas mulheres que nela vivem, produzem e resistem. Uma cooperação sólida e representativa entre os países amazônicos pode colocar a região na contramão da assimetria global e transformar o simbolismo da data em compromisso concreto. Nesse caminho, o Brasil pode assumir papel de destaque, ampliando o espaço para que mulheres não apenas sejam beneficiadas pelas decisões climáticas, mas também ocupem as mesas onde elas são tomadas. Só assim os compromissos assumidos poderão se converter, de fato, em políticas capazes de produzir impacto na vida das mulheres amazônicas.