Por Bruna Soares

Um novo capítulo da guerra comercial estadunidense começou em julho de 2026. Sob a alegação de que diversos países falham no combate ao trabalho forçado, o governo dos EUA sobretaxou mais de 59 economias, incluindo todo o bloco europeu. O Brasil, mais uma vez, não ficou de fora: junto com China e Rússia, foi enquadrado na alíquota mais alta, de 12,5% adicionais.

A nova onda de tarifas dos EUA

Em 2025, logo no início do atual mandato presidencial, o mundo já havia se deparado com uma escalada inédita de tarifas, que obrigou diversos governos a negociar nos termos dos EUA para tentar reduzir os impactos sobre suas economias. A diferença, desta vez, é que o Brasil está liderando, com apoio da China, uma mobilização na Organização Mundial do Comércio (OMC), em uma tentativa de resposta diplomática coordenada frente ao governo estadunidense.

É uma realidade evidente que essas medidas têm impactos relevantes sobre o comércio global. O que segue pouco discutido, no entanto, é como elas afetam grupos específicos da população. Ao analisar os efeitos das políticas protecionistas, a maior parte dos economistas foca no mercado de commodities ou na balança comercial dos países,  como se essas grandes decisões internacionais não atravessassem a vida cotidiana das pessoas.

Algumas pesquisas já indicam que os efeitos negativos também podem ser sentidos pela própria população dos EUA, que diferentemente do que diz a retórica do governo, tem pagado o preço dessas tarifas. Mas pouco se fala sobre como as mulheres, nos EUA e fora dele, são afetadas por esse processo.

Por que aplicar uma lente de gênero às guerras comerciais

Analisar política comercial e econômica exige lentes interseccionais. Sem essa metodologia, corremos o risco de ignorar os efeitos nocivos de medidas que não são escolhidas de forma arbitrária, mas a partir de um olhar restrito de proteção ao capital – sem considerar quem, na prática, sustenta o funcionamento da máquina capitalista.

Os países do Sul Global atingidos pela primeira rodada de tarifas dos EUA, como os países asiáticos, sofreram forte alteração em suas cadeias de valor no setor têxtil – majoritariamente ocupado por mulheres. Ao mesmo tempo, observou-se um aumento das chamadas pink tariffs (tarifas rosas): o encarecimento de produtos destinados majoritariamente às mulheres, fenômeno sentido sobretudo no próprio mercado interno estadunidense.

Para entender esses impactos diferenciais, é preciso reconhecer que o investimento em relações comerciais globais tende a favorecer a igualdade de gênero. As medidas protecionistas do atual governo dos EUA, por outro lado, vão além de uma disputa por espaço no comércio global com a China: têm uma natureza fundada no patriarcado, usando o protecionismo como ferramenta de valorização de uma masculinidade tradicional, pauta central do movimento que sustenta o atual presidente estadunidense.

MAGA e a masculinidade por trás do protecionismo

Em parceria com a Plataforma de Política Externa Feminista para América Latina e o Nueva Política Exterior (Chile), desenvolvi uma análise específica sobre quem paga o preço dessas guerras tarifárias. Ao investigar a gênese do movimento Make America Great Again (MAGA), é possível identificar as bases ideológicas que sustentam as atuais medidas protecionistas dos EUA, e seus vieses na taxação de países, especialmente em uma tentativa de ingerência sobre governos progressistas.

À primeira vista, pode parecer que o governo dos EUA simplesmente não tem uma lente de gênero, já que não propõe medidas com impactos positivos na vida de mulheres e populações LGBTQIA+. Mas, ao olhar com mais cuidado, fica claro que existe sim uma lente de gênero em ação, só que voltada não para a equidade, e sim para a retomada do poder masculino sobre a economia, a política e a sociedade. Alinhada aos princípios MAGA, a política protecionista dos EUA busca revalorizar a indústria estadunidense e reforçar a masculinidade hegemônica.

Como resumiu um importante apoiador do movimento em sua conta no X, por ocasião do tarifaço de 2025:

“Os homens nos EUA não precisam de terapia. Os homens nos EUA precisam de tarifas e do DOGE. Os falsos empregos de e-mail vão desaparecer. Competir com mulheres assim por EMPREGOS DE VERDADE vai acabar. As cozinhas ficarão cheias e sanduíches serão preparados. As taxas de fertilidade vão disparar.” (tradução própria)

O caso brasileiro: mulheres na exportação

Enquanto isso, países afetados como o Brasil têm atuado de forma completamente cega aos impactos diferenciais de gênero dessas tarifas. Ao analisar o Plano Brasil Soberano – programa de apoio do governo brasileiro criado em 2025 para as indústrias afetadas – não há nenhum recorte de gênero, seja para as mulheres trabalhadoras de base ou lideranças na cadeia de valor afetadas pelo protecionismo estadunidense.

Essa ausência contrasta com os próprios dados divulgados pelo governo do país: mulheres representam 58% da força de trabalho no comércio exterior brasileiro, mas ocupam apenas cerca de 14% das posições de liderança em empresas exportadoras. O Banco do Brasil já identificou os principais desafios enfrentados por elas no setor: acesso a crédito, dificuldade de negociação, sexismo e a difícil conciliação entre vida profissional e privada. Ainda assim, esse recorte não aparece no plano de assistência do governo.

Na base da cadeia produtiva, a situação é ainda mais crítica: 48% dessas mulheres não têm contrato de trabalho formal, e as que têm costumam trabalhar como safristas — reféns do calendário das colheitas, com instabilidade financeira no período de entressafra. Colhem e embalam produtos agrícolas de alto valor comercial destinados a mercados ricos, mas recebem pouco mais que o salário mínimo, renda que mal cobre despesas básicas como alimentação e vestuário para os filhos, empurrando muitas famílias para algum grau de insegurança alimentar. Boa parte dessas mulheres migrou para o trabalho assalariado nas grandes exportadoras justamente por não ter acesso à terra e à água para se manter de forma autônoma na agricultura familiar.

E a América Latina no tarifaço?

O sistema de proteção dessas mulheres segue falhando dos dois lados. Enquanto o governo dos EUA aplica a lente de gênero às avessas, como ferramenta para aprofundar a vulnerabilidade de mulheres já em condição de precariedade, seja nos países taxados, seja dentro dos próprios EUA, países afetados como o Brasil ignoram por completo os impactos diferenciais, reforçando uma lógica masculinista e hegemônica centrada no benefício de um capital liderado por homens.

Para a América Latina, a lição não deve ser lida como uma generalização a partir do caso brasileiro, mas como um ponto de inflexão diante da realidade atual: enquanto os países seguem cegos ao gênero, governos de extrema direita qualificam, especializam e instrumentalizam o tema como estratégia de retomada do poder masculino. É preciso estar atenta, porque essa cegueira tem custado, cada vez mais, a vida das mulheres.

Este texto resume a análise completa desenvolvida para o policy brief “La dimensión de género en la disputa entre Estados Unidos y China”, publicado em parceria com o Centro de Estudios Nueva Política Exterior (Chile). Leia o documento completo clicando no título do policy brief.