Por Natália Pasetti

Em seu discurso de posse do segundo mandato, o presidente dos Estados Unidos anunciou que o governo passaria a reconhecer oficialmente apenas dois gêneros. A frase, transformada em ordem executiva ainda no primeiro dia, deu início a uma sequência de medidas que ultrapassam as fronteiras norte-americanas e recolocam os direitos LGBTQIA+ no centro da política externa. O que começou como uma promessa de campanha se converteu em um repertório de ações replicado, com adaptações locais, por lideranças de todo o continente americano.

Uma ofensiva antigênero com alcance global

Nos meses seguintes, o governo dos EUA restringiu a emissão de passaportes com marcador de gênero não binário, baniu pessoas trans do serviço militar e cortou financiamento de programas de saúde voltados à população LGBTQIA+, conforme documentam levantamentos do KFF e do 19th News. Em 2026, os Estados Unidos também se retiraram do Grupo Central de Direitos LGBTI da ONU, criado em 2008 para reunir países comprometidos com a proteção dessa população, segundo reportagem do Washington Blade. O efeito não é apenas simbólico: quando o país que mais financia programas globais de saúde e direitos humanos recua dessas pautas, organizações civis em dezenas de países perdem recursos e respaldo político.

América Latina: um mesmo roteiro, sotaques diferentes

Pesquisadoras latino-americanas  vêm descrevendo esse fenômeno como parte de um repertório compartilhado por lideranças de extrema direita, que trocam estratégias, financiamento e narrativas entre si — muitas vezes com apoio direto de redes evangélicas conservadoras, segundo análise do Tricontinental Institute for Social Research. Na Argentina, o governo de Javier Milei extinguiu o Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade logo ao assumir e, desde então, suspendeu ou descontinuou pelo menos 13 programas de igualdade de gênero, incluindo iniciativas de inclusão para pessoas trans, com cortes de cerca de 89% no orçamento voltado ao combate à violência de gênero, de acordo com reportagem da Agência Patrícia Galvão. No Chile, o presidente eleito José Antonio Kast prometeu reformar a educação sexual nas escolas em nome de uma “educação sem ideologias”, enquanto a deputada trans Emilia Schneider segue sendo alvo de campanhas de ataque online, ainda segundo a mesma reportagem.

No Brasil, a ofensiva antigênero ganhou respaldo institucional durante o governo Bolsonaro e segue moldando o debate público, mesmo após a mudança de governo, conforme análise publicada na Revista Brasileira de Ciências Sociais. O país segue sendo o que mais mata pessoas trans e travestis no mundo: foram 80 assassinatos registrados em 2025 pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), citados em evento da WOLA, número que, apesar da retração em relação ao ano anterior, ainda coloca o país no topo desse triste ranking global. A proximidade entre lideranças como Milei e a família Bolsonaro, amplamente noticiada pela imprensa, reforça a leitura de que essas agendas nacionais estão cada vez mais entrelaçadas, formando uma rede continental de influência mútua.

A perseguição a população LGBTQIA+ também acontece nas redes

Essa disputa se desloca cada vez mais para o ambiente digital, onde bilhões de pessoas se informam e se conectam diariamente. Em janeiro de 2025, a Meta — dona do Facebook, Instagram e Threads — anunciou uma reformulação completa de suas políticas de moderação, encerrando parcerias de checagem de fatos e afrouxando as regras contra discurso de ódio, segundo análise da Human Rights Campaign. A nova política passou a permitir explicitamente alegações que descrevem identidade trans e homossexualidade como doença mental, além de discurso que pede a exclusão de pessoas LGBTQIA+ de espaços sociais, conforme denunciou a GLAAD. O resultado prático já apareceu em números: a remoção de conteúdo de ódio nas plataformas da empresa caiu 79% após as mudanças, segundo reportagem do GCN.

O impacto recai desproporcionalmente sobre quem produz conteúdo LGBTQIA+. Um levantamento posterior da própria GLAAD identificou aumento de conteúdo prejudicial direcionado a grupos marginalizados após o recuo das políticas de moderação. Casos concretos ilustram esse efeito: uma publicação brasileira no Instagram que celebrava relações entre mulheres lésbicas foi removida sob a justificativa de violar as regras contra discurso de ódio, e só voltou ao ar depois de recurso ao Comitê de Supervisão da própria Meta, conforme reportagem da Out Magazine. Episódios como esse mostram como páginas, contas e campanhas LGBTQIA+ seguem sendo derrubadas ou silenciadas, enquanto discursos que as atacam circulam com cada vez menos barreiras.

Por que os direitos da população LGBTQIA+ é assunto de política externa

Quando a maior potência do sistema internacional trata direitos humanos como moeda de troca política, o efeito se propaga: reconfigura negociações diplomáticas, redireciona financiamento de cooperação internacional e fragiliza a legitimidade de instituições multilaterais. O mesmo vale para as big techs, que hoje funcionam como infraestruturas globais de circulação de discurso político — decisões tomadas em escritórios nos Estados Unidos moldam o que pode ou não ser dito sobre identidade de gênero em qualquer parte do mundo.

Na América Latina, essa engrenagem se soma a fatores locais: bancadas evangélicas em expansão, financiamento cruzado entre movimentos conservadores de diferentes países e um ambiente digital cada vez menos moderado. Acompanhar essa dinâmica é essencial para construir uma política externa verdadeiramente feminista e inclusiva — capaz de responder a retrocessos que, cada vez mais, não conhecem fronteiras.

Perguntas frequentes

Por que direitos LGBTQIA+ são considerados uma pauta de política externa?+
Porque, quando a maior potência do sistema internacional trata direitos humanos como moeda de troca política, o efeito se propaga: reconfigura negociações diplomáticas, redireciona financiamento de cooperação internacional e fragiliza a legitimidade de instituições multilaterais. O mesmo vale para as big techs, que hoje funcionam como infraestruturas globais de circulação de discurso político.
O que mudou nos EUA para a comunidade LGBTQIA+ desde o início do segundo mandato de Trump?+
No discurso de posse, o governo anunciou que passaria a reconhecer oficialmente apenas dois gêneros, medida convertida em ordem executiva já no primeiro dia. Desde então, os EUA restringiram passaportes com marcador de gênero não binário, baniram pessoas trans do serviço militar, cortaram financiamento a programas de saúde para a população LGBTQIA+ e, em 2026, se retiraram do Grupo Central de Direitos LGBTI da ONU.
Como esse mesmo roteiro se repete na América Latina?
Pesquisadoras descrevem um repertório compartilhado por lideranças de extrema direita, com apoio de redes evangélicas conservadoras. Na Argentina, Javier Milei extinguiu o Ministério das Mulheres, Gêneros e Diversidade e cortou cerca de 89% do orçamento de combate à violência de gênero; no Chile, o presidente eleito José Antonio Kast prometeu uma "educação sem ideologias"; no Brasil, a ofensiva antigênero ganhou respaldo institucional no governo Bolsonaro e segue moldando o debate público.
Qual é a situação do Brasil em relação a assassinatos de pessoas trans?
O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo: a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) registrou 80 assassinatos em 2025. Apesar de representar uma retração em relação ao ano anterior, o número ainda coloca o país no topo desse ranking global.
Como as mudanças na moderação de conteúdo da Meta afetam pessoas LGBTQIA+?
Em janeiro de 2025, a Meta reformulou suas políticas de moderação, encerrou parcerias de checagem de fatos e afrouxou as regras contra discurso de ódio — passando a permitir, inclusive, alegações que descrevem identidade trans e homossexualidade como doença mental. Na prática, a remoção de conteúdo de ódio nas plataformas da empresa caiu 79% após a mudança, enquanto conteúdo prejudicial a grupos marginalizados aumentou.
Existe um exemplo concreto de conteúdo LGBTQIA+ afetado por essa mudança?
Sim: uma publicação brasileira no Instagram que celebrava relações entre mulheres lésbicas foi removida sob a justificativa de violar as regras contra discurso de ódio, e só voltou ao ar depois de recurso ao Comitê de Supervisão da própria Meta — um retrato de como páginas e campanhas LGBTQIA+ seguem sendo derrubadas, enquanto discursos que as atacam circulam com cada vez menos barreiras.