Por Maria Villarreal
A elaboração das bases da Política Externa Feminista
A Política Externa Feminista (PEF) é uma abordagem emergente nas Relações Internacionais que representa um ponto de inflexão na forma de pensar a política internacional, ao incorporar o gênero como elemento central da análise e da prática. Hoje, iniciativas como o Feminist Foreign Policy Index, do International Center for Research on Women (ICRW), buscam medir e incentivar a sua adoção, evidenciando o crescimento de políticas externas feministas no cenário internacional.
Para além das formulações institucionais, autoras como Mónica Salomón e Kathy Gilsinan têm chamado a atenção para o fato de que a política externa é moldada por fatores estruturais, institucionais e contextuais. Uma política externa é resultado de disputas, negociações e acomodações entre múltiplos interesses presentes no interior do Estado e da sociedade. Assim, ainda que determinados governos ou segmentos dentro deles adotem discursos e práticas alinhados ao feminismo e à promoção da igualdade de gênero, isso não implica que o conjunto da ação estatal ou sua política externa, em sua totalidade possa ser caracterizado como feminista. Além disso, a literatura crítica aponta que não existe uma política externa inerente ou automaticamente mais pacífica ou cooperativa apenas por ser conduzida por mulheres.
Entretanto, mais do que um modelo fechado, trata-se de uma agenda em expansão e construção, adaptada a múltiplas realidades e contextos. Não há uma definição única e universal de Política Externa Feminista, embora existam elementos comuns. Entre seus objetivos recorrentes estão a promoção dos direitos humanos e da igualdade de gênero em escala global, a redução de violências e discriminações, o fortalecimento da participação política das mulheres, o apoio à sua autonomia econômica e a ampliação de sua presença em processos de paz.
Por que criar Políticas Externas Feministas?
Como destacam as pesquisadoras Kelly Komatsu e Janina Onuki, a Política Externa Feminista insere-se na evolução do campo da Análise de Política Externa (FPA, sigla em inglês). Essa área já representava uma inovação ao deslocar o foco do Estado como ator unitário para indivíduos e pequenos grupos tomadores de decisão. Ao longo do tempo, contudo, diversificou-se, incorporando novas abordagens, metodologias e temas, tanto no Norte quanto no Sul Global. Com as transformações no cenário internacional, o aumento da presença feminina em posições de liderança e as contribuições dos estudos críticos e feministas em Relações Internacionais, passaram a ser consideradas novas variáveis analíticas, como o gênero.
Nesse contexto, ganha destaque a noção de Política Externa Feminista, entendida como uma abordagem que amplia os limites tradicionais da análise de política externa ao incorporar a dimensão de gênero aos processos decisórios. Ao reconhecer que o gênero dos tomadores de decisão importa e que as escolhas políticas são moldadas por relações de poder, a PEF coloca no centro a promoção da igualdade de gênero e dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que busca transformar estruturas historicamente excludentes. Dessa forma, seus efeitos se estendem por diferentes frentes: da diplomacia à defesa e à cooperação internacional, influenciando agendas estratégicas como direitos humanos, sustentabilidade ambiental, enfrentamento das mudanças climáticas, comércio internacional, segurança e ação humanitária.
A PEF considera que apesar da histórica limitação da presença feminina nos espaços de poder, as mobilizações do movimento feminista, somadas a iniciativas institucionais voltadas à promoção da igualdade de gênero, como a Declaração e Plataforma de Ação de Pequim, adotada na IV Conferência Mundial sobre a Mulher, em 1995, contribuíram para reconfigurar esse cenário. Nesse sentido, a PEF dialoga com agendas globais, como os direitos humanos, a Agenda Mulheres, Paz e Segurança da ONU e a Agenda 2030 com seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que buscam promover a igualdade de gênero, erradicar discriminações e violências e ampliar o empoderamento feminino. Essas agendas não apenas promovem a resolução de tais problemas, mas enfatizam a necessidade do fomento da participação plena em cargos de liderança, a valorização do trabalho doméstico e o acesso a direitos reprodutivos. Trata-se de medidas fundamentadas em um corpo crescente de evidências que demonstra o impacto positivo da presença feminina em espaços de liderança, associado a avanços sociais mais amplos em áreas tão diversas como direitos humanos, sustentabilidade, paz, cooperação, comércio internacional e segurança.
Sub-representação de mulheres na política
Apesar disso e dos avanços alcançados nas últimas décadas, o caminho rumo à igualdade plena ainda é longo. Segundo a ONU Mulheres e a União Interparlamentar (UIP), as mulheres seguem sub-representadas na liderança política global. Em 2026, apenas 28 países são liderados por mulheres, enquanto 101 nunca tiveram uma chefe de Estado ou de Governo.
Globalmente, as mulheres ocupam 22,4% dos ministérios, 27,5% das cadeiras parlamentares e menos de 20% das presidências parlamentares, com crescimento muito lento ou até mesmo em queda. Além disso, elas enfrentam desigualdades estruturais e altos níveis de violência política e permanecem concentradas em áreas sociais, enquanto os homens continuam dominando pastas estratégicas, como defesa e economia. O Brasil também acompanha essa tendência e no país observa-se uma queda na presença feminina tanto no Executivo quanto no Legislativo, o que agrava o desafio de ampliar a representatividade nas eleições de 2026.
É nesse cenário que os estudos sobre Política Externa Feminista se inserem, buscando não apenas evidenciar as desigualdades persistentes e a necessidade de superá-las, mas também destacar o papel das mulheres e as contribuições do pensamento feminista na formulação de propostas e soluções voltadas à construção de sociedades mais justas, sustentáveis e equitativas.
Avanços na PEF latino-americana
Embora os debates sobre feminismo e política externa tenham impacto em todos os países da região, na América Latina a PEF vem sendo adotada por países como México (2020), Chile (2022) e Colômbia (2026), sob governos de orientação progressista, como os de Manuel López Obrador, Gabriel Boric e Gustavo Petro. Essa agenda é resultado de lutas e demandas históricas dos movimentos feministas e da academia, e articula-se com compromissos regionais e globais.
Trata-se de um processo ainda em implementação que precisa de maior reflexão e avaliações. Contudo, entre os principais avanços, destacam-se a transversalização da perspectiva de gênero nas políticas externas, a adesão a convenções e acordos internacionais voltados à igualdade de gênero, o aumento do financiamento para projetos nessa área, a ampliação da presença feminina em espaços decisórios nacionais e internacionais, e o fortalecimento de iniciativas de paz e cooperação. Na região, há uma ênfase especial na inclusão de abordagens interseccionais, que consideram não apenas o gênero, mas também fatores como classe, raça e idade, além de mudanças discursivas, normativas e práticas que introduzem valores associados à solidariedade, à ética feminista e do cuidado. No conjunto, tais políticas contribuem para o fortalecimento democrático e para a valorização do papel das mulheres latino-americanas em agendas centrais, como a construção da paz, a cooperação internacional e a ação ambiental e climática, onde são historicamente protagonistas.
PEF no Brasil?
No Brasil, essas discussões também vêm ganhando centralidade, com propostas como a criação de uma política externa feminista inclusiva, a exemplo das iniciativas lideradas pelo Observatório da Política Externa Feminista Inclusiva (OPEFI), que busca incorporar a igualdade de gênero e a interseccionalidade no centro das relações internacionais, desafiando estruturas patriarcais e coloniais.
Política Externa feminista na Colômbia
Em março de 2026, no Palácio de Nariño, sede da Presidência da Colômbia, o presidente Gustavo Petro, acompanhado pela chanceler Yolanda Villavicencio, assinou o Decreto 0270 de Política Externa Feminista, que busca incorporar a perspectiva de gênero na formulação e na atuação da política externa colombiana. Na ocasião, a chanceler enfatizou que diante do retrocesso global de direitos, a Colômbia escolhia avançar e que: “A Política Externa Feminista já não é uma ideia. É fato, é ação. E os direitos, quando se tornam política de Estado, não se negociam, não se devolvem e não se rendem”. A Colômbia soma-se, assim, a uma série de países ao redor do mundo que vêm adotando essa abordagem e buscando transformar estruturas globais em direção a um mundo mais justo, sustentável e equitativo, não apenas para as mulheres, mas para todos.
Contexto latino-americano
Apesar desses avanços, o cenário regional continua marcado por profundas assimetrias. As mulheres seguem mais expostas à pobreza, encontram maiores barreiras no acesso a recursos e à propriedade, e são desproporcionalmente afetadas por diferentes formas de violência, além de assumirem a maior parte das responsabilidades relacionadas ao cuidado. Esses desafios se intensificam no caso de mulheres de grupos historicamente excluídos, como indígenas e afrodescendentes. Paralelamente, dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) indicam que o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) avança de forma insuficiente, com diversas metas estagnadas ou em regressão.
Nesse cenário, as Políticas Externas Feministas na região enfrentam contradições e desafios relevantes, como a persistência de desigualdades estruturais e de resistências políticas, a dificuldade de transformar compromissos em políticas efetivas e a necessidade de maior institucionalização, alocação de recursos e criação de mecanismos de monitoramento. A essas dificuldades, somam-se as ameaças representadas pela agenda antifeminista da extrema direita regional, parte de um movimento mais amplo de caráter transnacional, bem como a crescente relevância de grupos políticos, econômicos e religiosos que buscam influenciar os debates em matéria de gênero e direitos humanos, promovendo retrocessos significativos como parte de um projeto de poder.
Oportunidades para a PEF no Internacional
Por outro lado, no plano internacional, o contexto atual representa uma oportunidade para promover a agenda da PEF, contribuindo para transformações mais amplas no sistema internacional. O processo de eleição para a Secretaria-Geral da ONU, iniciado este ano, conta com candidaturas relevantes da América Latina, como Michelle Bachelet (ex-presidenta do Chile e ex-diretora da ONU Mulheres) e Rebeca Grynspan (economista, ex-ministra, ex-vice-presidenta da Costa Rica e secretária-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), reforçando a expectativa histórica de que a organização venha a eleger sua primeira mulher, possivelmente latino-americana, para o cargo.
Sem recorrer a visões essencialistas, múltiplas evidências indicam que a inclusão de mulheres nos processos decisórios está associada a melhores resultados, maior qualidade das decisões e maior sustentabilidade da paz. Nesse sentido, ainda que se trate de uma agenda em construção, o potencial da PEF reside em sua capacidade de redefinir prioridades globais e promover relações mais justas, pacíficas e sustentáveis. Ao propor um modelo mais inclusivo, democrático e orientado à sustentabilidade da vida, a Política Externa Feminista representa uma oportunidade concreta de transformação das relações internacionais em benefício de todos.