Por Maria Gabriela Veloso
As Políticas Externas Feministas (PEF) enfrentam desafios que variam desde a fragilidade institucional diante de mudanças políticas até a incoerência entre o discurso diplomático e as práticas econômicas e militares.
Assim como muitas diretrizes a nível governamental ou institucional, a política externa tende a estar sujeita a certa vontade política do governo de turno, dependendo de articulação para que mantenha sua continuidade.
Vale retomar por exemplo o caso da Suécia, que foi pioneira em promulgar uma PEF, e que a revogou após mudanças governamentais e ascensão do conservadorismo no país a partir de 2022. Um quadro semelhante também aconteceu na Argentina, a institucionalidade de gênero e o cargo de Representante Especial para a PEF foram desmantelados abruptamente com o início do governo de Javier Milei. Neste sentido, para preservar a continuidade da PEF é preciso criar ancoragens sólidas a nível administrativo, legal e orçamentário.
Um ponto de crítica de algumas abordagens de PEF é a ideia de que apenas “adicionar mulheres” – uma visão quantitativa, tradicionalmente liberal – em estruturas institucionais tradicionalmente hierárquicas e masculinizadas, sem pensar em como de fato transformar os fundamentos normativos que perpetuam a exclusão de gênero, raça e classe – uma visão interseccional, mais comum nas manifestações das PEF do Sul Global.
Critica-se, ainda, a tendência de governos justificarem a PEF por “ganhos de produtividade” ou paz duradoura, o que instrumentaliza os feminismos e trata as mulheres como agentes utilitários para resolver crises do Estado, em vez de focar em direitos humanos básicos. Questiona-se também as PEFs do Norte Global que adotam uma postura assistencialista, posicionando-se como agentes que “ensinam” igualdade de gênero ao Sul Global, ignorando, desta forma, os saberes locais e reforçando a dependência econômica entre o Norte e Sul.
Risco de uso simbólico
O uso da PEF não está isento de ambiguidades e riscos, especialmente quando seu conteúdo normativo é esvaziado em favor de uma apropriação simbólica. Um dos principais problemas reside na possibilidade de o termo “feminista” ser mobilizado como estratégia de branding estatal, funcionando mais como um instrumento de reputação internacional do que como vetor de transformação concreta. Nesse sentido, a PEF pode ser instrumentalizada para projetar a imagem de um país como uma espécie de “superpotência moral” ou “bom cidadão global”, particularmente em fóruns multilaterais, sem que isso se traduza em mudanças efetivas na distribuição de recursos, na formulação de políticas ou na ampliação da agência de sujeitos historicamente marginalizados.
Esse esvaziamento também se manifesta na apropriação superficial da noção de interseccionalidade. Em muitos casos, governos passam a adotar o termo como um rótulo retórico, limitado à simples inclusão de novos grupos, como pessoas LGBTQIA+, na categoria de “mulheres”, sem enfrentar as estruturas profundas de poder que articulam racismo, sexismo e outras formas de opressão. Tal uso reducionista não apenas compromete o potencial analítico e político da interseccionalidade, como também a torna vulnerável a ataques de movimentos de extrema direita, que exploram essa fragilidade para deslegitimar a PEF.
Outro risco importante é o chamado purple washing (também chamado de pink ou gender washing), prática pela qual governos adotam a retórica feminista como ferramenta de marketing político, sem promover mudanças estruturais substantivas. Essa contradição torna-se particularmente evidente quando se observam políticas concretas que colidem diretamente com os princípios da PEF. É o caso de Estados que, ao mesmo tempo em que defendem a paz e a igualdade de gênero no plano discursivo, figuram entre os principais exportadores de armas para regimes autoritários ou zonas de conflito, onde mulheres e meninas são desproporcionalmente afetadas pela violência. De modo semelhante, políticas migratórias restritivas e frequentemente violentas revelam tensões profundas entre discurso e prática, especialmente quando impactam de forma aguda mulheres, crianças e outras populações vulneráveis.
Assim, o uso meramente simbólico da PEF não apenas limita seu potencial transformador, como também pode produzir efeitos contraproducentes, ao reforçar desigualdades existentes, esvaziar conceitos críticos e oferecer munição para reações conservadoras. Mais do que adotar uma linguagem feminista, a efetividade da PEF depende de sua tradução em compromissos materiais, institucionais e políticos que enfrentem, de fato, as estruturas de poder que sustentam a desigualdade no sistema internacional.
BACKLASH
A PEF tem enfrentado um fenômeno crescente de backlash que coloca em xeque tanto seu potencial transformador quanto sua sustentabilidade no sistema internacional. Esse backlash não se limita a reações sociais difusas, mas constitui um movimento político articulado, transnacional e estrategicamente financiado, que busca reverter avanços históricos em matéria de direitos das mulheres, diversidade sexual e igualdade de gênero. Nesse sentido, ele se configura como uma ameaça não apenas a agendas específicas, como a Mulheres, Paz e Segurança, mas também a princípios mais amplos ligados à democracia, ao Estado de Direito e à própria arquitetura normativa internacional.
Um dos elementos centrais desse processo é a consolidação de uma chamada “internacional reacionária”, composta por atores estatais e não estatais, incluindo redes religiosas, grupos políticos e organizações da sociedade civil conservadora, que atuam de forma coordenada para enfraquecer marcos normativos globais. Esses atores mobilizam estratégias diversas, como o uso do termo “ideologia de gênero” para deslegitimar tanto o ativismo quanto a produção acadêmica na área, associando-os à destruição de valores tradicionais e à ameaça à soberania nacional. Essa retórica tem sido particularmente eficaz para galvanizar apoio político e justificar a reversão de políticas públicas, além de criar um ambiente hostil para defensoras de direitos humanos.
O backlash também se expressa por meio de estratégias sofisticadas de atuação política. Entre elas, destaca-se o chamado venue shopping, que consiste na ocupação sistemática de múltiplos fóruns multilaterais, mesmo aqueles não diretamente relacionados à agenda de gênero, com o objetivo de polarizar debates, introduzir ambiguidades conceituais e bloquear consensos previamente estabelecidos. Paralelamente, o uso intensivo de plataformas digitais tem potencializado a disseminação de desinformação e discursos de ódio, especialmente contra mulheres em posições públicas, contribuindo para um ambiente de intimidação e silenciamento. Esse ecossistema é frequentemente sustentado por fluxos robustos de financiamento, que, em alguns contextos, superam significativamente os recursos destinados a iniciativas de promoção da igualdade de gênero.
Desafios de financiamento e austeridade
As dificuldades de financiamento e os efeitos da austeridade fiscal constituem um dos principais entraves para que as PEFs se concretizem para além do plano retórico. Embora muitas estratégias nacionais sejam formuladas com elevado grau de ambição normativa, persiste uma lacuna estrutural entre compromissos diplomáticos e alocações orçamentárias efetivas. Essa discrepância compromete não apenas a credibilidade internacional dessas políticas, mas também sua capacidade de produzir transformações materiais duradouras.
Um dos aspectos mais evidentes dessa tensão é a adoção de medidas de austeridade por países que, simultaneamente, se apresentam como promotores da igualdade de gênero no cenário internacional. Cortes significativos na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD), anunciados ou implementados por governos como os da Alemanha, Países Baixos, França e Reino Unido, têm sido amplamente criticados por organizações da sociedade civil, que apontam uma contradição profunda entre discurso feminista e retração do financiamento. Em um contexto global marcado pelo aumento dos gastos militares e pela priorização de agendas de segurança, recursos que poderiam ser destinados à promoção da justiça social e à igualdade de gênero são redirecionados, reforçando dinâmicas que a própria PEF se propõe a combater.
Essa limitação orçamentária se agrava quando se observa a distribuição desigual dos recursos disponíveis. Organizações feministas de base, especialmente no Sul Global, permanecem cronicamente subfinanciadas, apesar de serem reconhecidas como agentes centrais na promoção de mudanças estruturais. Estima-se que menos de 1% da ajuda internacional voltada à igualdade de gênero chegue diretamente a essas organizações, que enfrentam, além da escassez de recursos, barreiras burocráticas significativas para acessar financiamentos. Como resultado, muitas dessas iniciativas operam em condições precárias, com riscos concretos de descontinuidade, o que fragiliza a implementação de políticas transformadoras nos territórios onde elas são mais necessárias.
A sustentabilidade da PEF também depende de sua institucionalização por meio de mecanismos orçamentários robustos, como o chamado gender budgeting. Ainda que alguns países tenham avançado na incorporação de critérios de gênero em seus processos de alocação de recursos, a predominância de financiamentos baseados em projetos, muitas vezes de curto prazo, limita a previsibilidade e a continuidade das ações.
No Sul Global, e particularmente na América Latina, a questão do financiamento está profundamente imbricada com dinâmicas estruturais de endividamento e desigualdade. A austeridade, nesse contexto, não é percebida apenas como uma resposta técnica a crises fiscais, mas como um mecanismo que restringe a capacidade dos Estados de investir em políticas sociais e de cuidado. Movimentos feministas têm, portanto, articulado a defesa da PEF com demandas mais amplas por justiça econômica, incluindo a revisão de regimes de dívida e a ampliação de investimentos públicos em infraestrutura social. Essa perspectiva enfatiza que a promoção da igualdade de gênero exige não apenas compromissos normativos, mas também uma reconfiguração das prioridades econômicas.
Paradoxalmente, mesmo quando há recursos autorizados, problemas de execução orçamentária também comprometem a efetividade das políticas, revelando que os desafios não se limitam à escassez, mas incluem falhas institucionais na implementação. Ao mesmo tempo, a própria sociedade civil enfrenta uma crise de financiamento, o que limita sua capacidade de monitorar, propor e executar políticas públicas, enfraquecendo um dos principais pilares de sustentação da agenda feminista.
Diante desse cenário, as dificuldades de financiamento e os regimes de austeridade emergem como obstáculos centrais à consolidação das PEF. Mais do que uma questão técnica, trata-se de um problema político que envolve disputas sobre prioridades estatais, modelos de desenvolvimento e distribuição de recursos.