Política Externa Feminista pensada a partir da América Latina

Por Maria Gabriela Veloso

O que é Política Externa Feminista a partir da América Latina?

Para os movimentos e organizações da América Latina, a Política Externa Feminista (PEF) vai além da inclusão de mulheres em cargos diplomáticos; ela é definida e pensada como uma proposta interseccional, decolonial e antirracista. A PEF a partir da América Latina é um projeto normativo e político em construção que busca desafiar as estruturas de poder patriarcais, coloniais e racializadas que historicamente moldaram as relações internacionais.  

ORIGEM E DEFINIÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA FEMINISTA

A Política Externa Feminista é de certa maneira resultado de décadas de incidência de movimentos feministas e acordos internacionais, como a Convenção CEDAW (1979), a Conferência de Pequim (1995), a Resolução 1325 (2000) e a Agenda Mulheres, Paz e Segurança.

De acordo com o Manifesto da Política Externa Feminista Latinoamericana e Caribenha, é importante reconhecer que as PEFs devem partir de capacidades concretas de descentralizar hierarquias coloniais, raciais e de gênero, questionando, assim, a atuação tradicional dos Estados no sistema internacional. Desde uma visão mais centrada nas experiências do Norte Global, o International Center for Research on Women define, desde de um enfoque mais liberal, que a PEF como a política de um Estado que prioriza a igualdade de gênero e os direitos humanos em suas interações com outros Estados e movimentos, destinando recursos significativos para este fim e buscando interromper estruturas de poder patriarcais e masculinas em todos os seus níveis de influência (assistência, comércio, defesa e diplomacia).

Oficialmente, a PEF tem sua origem em 2014, quando a Suécia, sob a liderança da então ministra dos Negócios Estrangeiros, Margot Wallström, se tornou o primeiro país do mundo a adotar formalmente essa abordagem.

A perspectiva sueca surgiu, naquele momento, como uma resposta inovadora para os desafios contemporâneos, buscando unificar estratégias de direitos humanos, desenvolvimento e paz sob um quadro político que promova a igualdade de gênero de forma transversal na diplomacia, defesa, comércio e ajuda humanitária.

Desde então, mais de uma dúzia de países seguiram essa tendência, incluindo o México (2020), o primeiro da América Latina, além de Chile (2022) e Colômbia (2026 – assinatura do decreto presidencial). Vale pontuar que a PEF está em constante evolução e sua mobilização varia conforme o contexto nacional, e, particularmente, das experiências de lutas feministas nestes espaços.

Diferença entre “política externa tradicional” e feminista

Pode-se apontar que a principal diferença entre a política externa tradicional e as feministas reside no deslocamento do foco dos interesses do Estado para a segurança humana. A política externa entendida como “tradicional” é frequentemente compreendida e descrita como androcêntrica e estadocêntrica, baseada na busca de um “interesse nacional” através do poder econômico e militar.

A política externa tradicionalmente foca na segurança nacional e soberania do Estado, muitas vezes fundamentada no militarismo, na posse de armas e na lógica de dissuasão. A abordagem feminista não ignora a existência e o poder do Estado, mas defende o antimilitarismo, o desarmamento e a priorização da paz e da mediação sobre a coerção.

A ideia de uma Política Externa Feminista reflete uma intenção de transformação das relações de poder presentes no sistema internacional. Enquanto a abordagem tradicional é frequentemente centrada em perspectivas técnicas tratadas como “neutras”, a PEF propõe uma prática diplomática baseada em uma ética do cuidado e na justiça social, que coloca a igualdade de gênero, os direitos humanos e o bem-estar de grupos subalternizados no centro de todas as decisões.

Quais são os princípios das Políticas Externas Feministas?

Igualdade de gênero como eixo central: A igualdade de gênero é o princípio fundamental e o eixo definidor das PEFs, funcionando como um compromisso normativo para transformar o sistema internacional em um espaço mais equitativo e inclusivo. A igualdade de gênero é vista como o núcleo central e transversal da ação externa de um Estado, posicionando-a não apenas como um direito fundamental, mas como um requisito essencial para o desenvolvimento, a paz mundial e a segurança internacional. Em vez de ser tratada como um tema periférico, ela passa a ser o filtro através do qual todas as ações diplomáticas, de defesa e de desenvolvimento são articuladas.

Direitos humanos e interseccionalidade: Nas PEFs, os direitos humanos e a interseccionalidade são as bases normativas que buscam transformar o sistema internacional. Enquanto os direitos humanos oferecem o fundamento jurídico e ético, a interseccionalidade atua como a ferramenta analítica para identificar quem está sendo deixado para trás. Os direitos humanos aparecem na PEF de forma transversal, deslocando o foco da “segurança do Estado” para a segurança humana. A interseccionalidade é o que diferencia as PEFs mais recentes,e , e particularmente as latino-americanas, das abordagens liberais tradicionais. Ela reconhece que a desigualdade de gênero não ocorre isoladamente, mas se cruza com raça, classe, etnia, orientação sexual e idade, entre outros.

Participação de mulheres na diplomacia: A participação de mulheres na diplomacia é um dos pilares fundamentais das PEFs, sendo frequentemente articulada através do eixo da Representação, um dos componentes do tripé original sueco. Um ponto negativo disso é que muitos dos governos que adotam a PEF ainda utilizam uma abordagem liberal – embasada numa ideia superficial de representação – que prioriza metas para o aumento quantitativo de mulheres em processos decisórios. Essa noção quantitativa não implica em uma mudança profunda na cultura organizacional das agências estatais, que permita que tais diplomatas sejam efetivamente integradas.  

Por que a Política Externa Feminista é relevante hoje?

A relevância da PEF reside no compromisso de redefinir as ações exteriores para além dos interesses tradicionais de Estado, focando na eliminação de estruturas globais de desigualdade e na defesa do multilateralismo e da democracia frente ao avanço de movimentos conservadores e “anti-gênero”.

1) Impactos na segurança internacional
A PEF propõe um deslocamento do paradigma de segurança centrada no Estado para a segurança humana, priorizando a proteção das pessoas e dos sistemas de vida acima das fronteiras. A perspectiva regional da América Latina defende políticas exteriores que abandonem lógicas de dominação e violência, promovendo o desarmamento e a solução pacífica de controvérsias.

2) Relação com desenvolvimento sustentável
As PEFs integram a igualdade de gênero como um motor de eficiência para o desenvolvimento, partindo da premissa de que sociedades mais igualitárias são mais estáveis e prósperas. Na América Latina, busca-se reconhecer que a crise tripla planetária (clima, biodiversidade e poluição) afeta desproporcionalmente corpos feminilizados e racializados no Sul Global. A PEF busca garantir uma transição energética justa que evite o extrativismo e o colonialismo

3) Influência em organismos internacionais
A PEF é também um instrumento para pautar a reforma da governança global e das instituições multilaterais. Países adotantes criaram o Feminist Foreign Policy+ Group na ONU e utilizam espaços como o G20 e a Organização Mundial do Comércio para promover agendas de comércio e gênero.  

A PEF como um caminho para a inclusão

Diante desse panorama, pensar uma Política Externa Feminista a partir da América Latina é, sobretudo, reconhecer que não se trata de um modelo acabado, mas de um processo em disputa e construção contínua. Mais do que adaptar diretrizes formuladas no Norte Global, a região propõe ressignificar a própria noção de política externa, incorporando as experiências históricas de colonialismo, desigualdade e resistência que marcam seus territórios.

Assim, a PEF latino-americana se afirma não apenas como uma agenda de inclusão, mas como um projeto transformador que busca reorientar prioridades, práticas e estruturas de poder no sistema internacional. Ao articular gênero, raça, classe e território, ela amplia o horizonte da ação diplomática e desafia a ideia de neutralidade que historicamente encobriu desigualdades profundas.

Em um contexto global atravessado por crises múltiplas e pelo avanço de agendas conservadoras, a Política Externa Feminista emerge como uma alternativa normativa e prática que recoloca a vida, o cuidado e a justiça no centro das relações internacionais. Seu potencial depende da capacidade de ir além do discurso e se materializar em políticas coerentes, recursos concretos e transformações institucionais duradouras.